Qual foi, neguinho?

– E aí, neguinho?

– Qual foi portuga?

– Tu viu o japa por aí?

Começa tudo na boa, na base do “aaaaai, é só brincadeeeeeira”, tudo leve, até alguém pisar no calo… Aí, vira macaco. Macaco? Qual macaco? O que vive no zoologico? Não… Agora as pessoas chamam os negros de macaco! Acredite ou não! Sabe aquela história que contam por aí sobre o Brasil… De que aqui as pessoas são macacos que vivem na selva, andam nas na rua, só tem carnaval-futebol-samba-feriadooanotodo? É na mesma linha. Discriminação acontece o tempo todo, dentro e fora dos campos de futebol, nas ruas, nas escolas, nas casas, na vida! Vida?! Que vida? 
Chegamos ao ano de 2014, onde celulares praticamente falam sozinhos, disquete é coisa do passado, mas a moda ainda é chamar de macaco. Lamentável.
O preconceito está por toda a parte, as pessoas te olham diferente se você entra no shopping de chinelo, com uma bermuda mais velha. Basta o semáforo fechar, alguém se aproximar do seu carro, para você fechar o vidro, principalmente se for negro, aí então… O “pânico” é geral. Com qual prioridade eu falo isso? Por ser filha de negro, com muito orgulho, e ver meu pai ser direcionado para o elevador de serviço por sua raça, quando na verdade, ele estava em um hotel indo para uma reunião; por minha irmã também ser chamada de “mulatinha esquentada” e também por eu mesma sofrer preconceito.
Na quinta série um menino me empurrou uma vez contra uma mesa, porque eu não escutei ele pedindo licença, e aí ele disse: 

– Tinha que ser preta mesmo. 

Como por natureza, sou uma pessoa desligada, não me toquei da tamanha atrocidade que ele havia dito e ficou por aquilo mesmo.
O preconceito e discriminação por raça começa quando você fecha o vidro do carro para uma pessoa e hoje, tem terminado nos campos de futebol como quando jogam uma banana para Daniel Alves ou chamam Aranha ou Arouca de macaco. Tudo isso, acredite você, em pleno 2014. SÓ em 2014 já aconteceram – que eu tenha visto/ouvido/lido – todas essas acusações baixas e extremamente racistas, SÓ nos campos de futebol, imagina nas ruas, nas favelas, nas escolas e nas casas.
Historicamente, Martin Luther King tentou MUITO lutar para que isso acabasse, uma vez que, na cidade de Montgomery, Alabama – EUA, os ônibus tinham uma divisão entre brancos e negros nos assentos, brancos na frente, negros atrás. Quando os dois grupos se encontrassem e não houvesse mais lugares disponíveis, exigia-se que o negro que entrasse depois ficasse em pé. Se uma outra pessoa branca entrasse no ônibus, um negro que se sentasse no lugar mais à frente do veículo teria de se levantar para dar lugar ao branco, permitindo a expansão do espaço destinado aos brancos.
O preconceito racial data muito antes da década de 50 – época da tentativa de boicotar os ônibus que tinham divisão entre negros e brancos -, como se sabe. Negros eram escravos, entre muitos motivos escrotos, também por serem “superiores” em relação aos brancos nos aspectos físicos.
Então… Aguentavam muito mais peso, incluindo o peso do chicote que sangrava em suas costas quando os mesmos ficavam amarrados contra os troncos. Essa punição? Era pelo fato deles serem negros e negros eram “burros” “incapacitados” “incompetentes” “mereciam a morte” “não sabiam fazer nada teriam que sofrer”. Lamentável, mais uma vez.
Ora, caro leitor, você pode chegar nesse ponto do texto e dizer: Agora só falta ela me dizer que acha justo as cotas para negros e indígenas nas universidades! Sim, acho justíssimo, não só pelo reconhecimento de uma história de uma vida inteira de sofrimento, mas também e principalmente pelo fator de grande parte, senão a maior, da população brasileira ser negra; Por ser negra ela é discriminada, pobre, não reconhecida em seus direitos – incluindo os básicos e humanos -, e acima de tudo marginalizada e colocada, justamente como eu disse, à margem da sociedade, jogada no morro, na periferia e todos os dias tomar tiro, pois sim, a polícia do Brasil é uma das que mais mata negros diariamente. Além disso, é uma sociedade que não tem direito à educação e sim, eu sei que no morro também tem branco, tem japonês, tem chinês, tem de tudo e todo mundo é igual, ninguém é diferente. Se ninguém é diferente e todos somos iguais diante da constituição, por que excluir? Por que não colocar na mesma universidade que o filho do cara que tem loja na Av Paulista? Todos merecemos a mesma educação, O MESMO RESPEITO, sejamos negros, brancos, indígenas, indianos, portugueses ou qualquer outra nacionalidade/raça/credo/religião.
Portanto, caro leitor, meu objetivo aqui com o texto não é, de maneira alguma, fazer uma lavagem na sua cabeça, puxar você pelo braço e dizer: aceite as cotas raciais, pelo amor de Deus! Não… O meu objetivo aqui é chegar no ponto que: TODOS somos iguais diante da lei, isso está nas constituições, só jogar no Google e você lerá. Não existe macaco, não existe banana, o que existe é o seu preconceito que precisa sumir, como eu disse ali atrás, desde parar de fechar o vidro do carro quando um negro chega perto até parar de uma vez, mesmo, de chamar jogador negro de macaco.Não existe diferença entre eu que sou negra e você que é branco, não existe nenhuma coisa que eu seja melhor por ser negra e nem você pode ser branco, somos iguais por fora e diferentes por dentro em nossas características, defeitos e qualidades, as nossas personalidades sim, nos tornam diferentes e especiais, quanto ao fato de se é negro ou branco, pouco se importa, raça não quer dizer melhor ou pior; independente de branco ou negro, o respeito há de prevalecer, respeito é bom e todos gostamos. Temos de nos unir para acabar com a discriminação e exclusão racial. Pare de olhar diferente para quem entra de chinelo no shopping, pare de achar que quem ouve funk é maloqueiro e que negro é macaco. Pare com o preconceito, pare com tudo e respeite as diferenças, todas elas, uma por uma.
Recomendo, por fim, dois filmes que tratam pontualmente do racismo e discriminação contra negros: 
– 12 Years a Slave (12 anos de Escravidão)
– The Help (Histórias Cruzadas)
Deixo também os respectivos links dos trailers:
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Existem as relações à dois e existem as relações compartilhadas com o mundo, com todos os seus amigos, com todos os amigos dos seus amigos e os amigos dos amigos dos seus amigos. 
Existem as fotos compartilhadas com o mundo, com todos os seus amigos, com todos os amigos dos seus amigos e com os amigos dos amigos dos seus amigos. 
Existem e acabam
Acabam e existem.
Afinal, parafraseando Sérgio Chapelin, apresentador do globo repórter:
– Fotos de namoros em redes sociais. De onde vem? Para onde vão? Como vão? 
As fotos em redes sociais são um fenômeno surreal pois as pessoas não namoram só para elas, elas namoram para o mundo. A questão: E quanto acaba? Por que apagar algo que te fazia tão bem? A vulnerabilidade com que as pessoas se relacionam hoje é tão ou maior quanto a velocidade com que um botão “deletar” é apertado para a foto. Uma lembrança de anos, meses ou dias… Apagada em uma fração de segundos. Os sentimentos então são assim agora? Finalizados em uma fração de segundos? Isso apaga mesmo coisas que estão na sua mente? Qual a real necessidade de apagar da memória virtual, se talvez, da memória real não será apagada. 
Pesquisas na área de saúde já foram realizadas sobre, por exemplo, a equivalência de você mandar um smile (famosas carinhas) e isso querer dizer que na “vida real” você estaria sorrindo da mesma forma. Se pararmos para analisar cada carinha que foi criada, temos carinhas de todos os tipos de emoções. Se uma carinha pode representar a mesma coisa que um sentimento na vida real, uma foto apagada pode querer dizer que aquele momento foi completamente deletado da sua vida?
Memórias não deveriam ser apagadas. Penso que já que é algo que foi tão bom… Deveria permanecer, como quando você revelava fotos. A fotografia carrega muitos conceitos artísticos, mas dentre os conceitos artísticos, podemos encontrar os sentimentais, os que dizem respeito ao nosso passado, presente e até mesmo… Futuro. 
Futuro? Como assim, Bia? 
É, futuro! Algo que você almeja, procura uma imagem e guarda. Eu mesma fiquei dois anos com a foto da minha tatuagem guardada até fazer e não apaguei a foto assim que fiz! Por que? Para me recordar de como foi bom encontrar com ela na internet, só de olhar para a foto eu me lembro do momento que eu estava -cursinho-prévestibular-18anos-rebeldia-poucodinheiro-nenhumtrabalho-mãenaorelha -, e hoje… Quando eu olho minha tatuagem… Ah, que felicidade. 

Mas… A vida não é só feita de lembranças boas, (in)felizmente. Ensaios já foram feitos sobre como casais começam e terminam seus relacionamentos, existem fotos disso. Apesar de ser um momento ruim na vida de alguém, eu tenho certeza que o registro vai lembrar que ali alguma lição foi aprendida ou ensinada ou vice-versa. Nossa cabeça não armazena só as coisas boas, dizem por aí que ela até armazena mais as coisas ruins do que as boas, o que é isso? Aprendizado. Tudo na vida é aprendizado, momentos ruins também. Cada relacionamento é um aprendizado, um amadurecimento. As fotos? Só lembranças visuais disso.

Memórias, mesmo as seletivas, não deveriam ser deletadas, nem os sentimentos. As memórias devem permanecer vivas dentro de nós. Esse papo do passou passou, não sei se pode ser levado à sério. Será que deletar a foto te fará tão bem quanto ainda ter ela por perto para daqui um tempo lembrar dos momentos bons? Quando meu último namoro terminou, não apaguei nenhuma foto; Já faz 1 mês pra mais… Até agora, não apaguei nenhuma foto que foi tirada em 1 ano e três meses. Se você parar para pensar em tudo que disse acima, caro leitor, juntar com o que tento dizer nessas tortas linhas, 1 ano e três meses em 1 mês… Por que eu deveria me desfazer? Traumático por traumático que qualquer fim de relacionamento seja, o porta retrato com uma foto preta e branca minha e dele, ainda está no gaveteiro da minha cômoda, junto com a última embalagem que recebi de dia dos namorados. Eu afastei um pouco, tirei de cima da minha cômoda, mas não deletei, nem arremessei contra a parede. Transformar em cacos de vidros algo que foi tão belo e intenso quase como uma flor, seria insanidade, pelo menos para mim.

Fotografias são coisas que nosso olho capta para uma eternidade e além mais… Não deixe que o medo do futuro por um término no presente, acabe com suas lembranças que serão, mesmo que você não queira, eternas. Arrisco dizer que, fotografias são como cartas, um simples gesto pode mudar o seu dia agora e daqui anos pode te fazer sorrir como há muito tempo. As relações podem mesmo não ser eternas, ninguém nasceu grudado com a mãe e quando estava ali agarrado por 9 meses, tiraram, mas as memórias… São eternas, assim como as fotografias.

Arrisco dizer novamente, revele suas fotos, é um processo de relevar talvez o sentimento que há dentro de você e você não quer mais compartilhar com ninguém, é de seu direito… Afinal, como também já disse antes, as pessoas revelam muitas coisas para o externo, mas para o interno não.

Não delete sentimentos, não delete nada, insert.
Afinal, Caetano já disse: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Se você acha que eu fumei um (não, eu não fumo, nada) e não entendeu muito bem, aqui vai um trailer de um filme SENSACIONAL que está relacionado com tudo isso:

http://www.youtube.com/watch?v=cYEuKFbSsuE

Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, 2004)

Café

Um casal se beijava feliz e contente, eles contavam a novidade
do dia que tinha acontecido na loja de roupas. 
Uma mulher pediu para eu guardar o lugar dela na poltrona para
comprar o jantar: um mixxxxxxxto quente e um suco de laranja.
Um casal guardou minha bolsa enquanto fui ali comprar chiclete,
eles realmente guardaram minha bolsa, quanta raridade para o 
dia de hoje. 
Um homem, o segurança do café, sentou para descansar, pestanejou
e pegou o celular alguns minutos, depois tirou uma “selfie” mas antes 
arrumou a gravata e a gola da camisa. 
O casal que se beijava e guardou minha bolsa, mesmo, brigavam um 
com o outro para baixarem um aplicativo onde você guarda segredos,
ual! Você consegue imaginar isso?! Segredos em um aplicativo, ninguém
saberá que foi você quem publicou, mas o mundo saberá um segredo seu!
3 amigas conversavam sobre a faculdade e o trote da noite anterior
Um casal, não sei se de namorados ou amigos, estavam apenas olhando 
um para o outro, apenas olhando… As pernas estavam um pouco entre-
laçadas!
O casal que guardou minha bolsa, que se beijava e que brigava, agora 
se beija novamente. 
E eu? Calçadas pretas e brancas, vento nelas, crie você o colorido pro fim
É, apenas o fim. 
Amanhã? Só mais um dia normal. Hoje? Também. 🙂