amor, parte dois.

Segunda já dava suas caras, mas domingo ainda estava escondido na madrugada do sol que iria raiar. Foi uma semana complicada, onde nada parecia ter fim, muito menos os vômitos e ânsias. Quando parecia finalmente encerrar, quinta feira gritou de dor, travou. Sexta feira então, engarrafou, a pressão era tão alta que a sensação era de alcançar o céu num tremor imenso. Os enfermeiros nunca tinham visto algo igual, os médicos ficaram chocados e não teve máquina que segurasse a dor e o desejo de sair dali. A paciente repetia tudo que as pessoas ao seu redor falavam, inclusive nomes aleatórios; ela falava exatamente em terceira pessoa, como se simplesmente ela não fosse aquela pessoa, como se ela não estivesse ali por um momento. 
Os médicos pediram vários exames mas nenhum chegava em algum resultado, os remédios só causavam o efeito inverso, vômitos e mais ânsias. Anda na sexta feira, já era madrugada, podia-se escutar o barulho dos pássaros na rua, o barulho do ar condicionado trabalhando duramente dentro do hospital. O pai chorava segurando as mãos da filha, ele só desejava que aquilo tivesse um fim; a mãe estava desnorteada mas apresentava um aspecto como se nada tivesse acontecido, beijava a testa da filha e a cobria, pois a menina sentia muito frio nas pernas. 
A menina finalmente acordou depois de um profundo sono, o soro ainda não tinha terminado, mas ela se sentia um pouco melhor, já conseguia falar sem que sua língua num rompante escapasse da boca, os dentes já não rangiam mais e a primeira coisa que ela perguntou foi: 
Posso ligar para o namorado?
Ela não falava mais o pronome possessivo “meu”, não se sabe exatamente porquê mas ela simplesmente falava isso, o namorado. Porém, o relógio já alcançava com seus ponteiros as 3h. Aquele horário não era possível fazer ligação, talvez o coração dela estivesse falando mais alto. A mãe da menina disse para ela esperar um pouco para ligarem pois aquela hora não era possível.
Amanheceu, 
Ela ligou para o namorado, ele desceu a serra, mesmo sem aquilo estar programado. Não conseguiu pensar se aquele pedido ia atrapalhar alguma coisa, mas a menina ainda não tinha a consciência recuperada e sim uma clareza, o coração, pois a saudade era muita. Afinal na semana passada eles haviam se despedido e o coração dela ficou em pedaços pequenos, como se aquilo fosse um adeus, mas era somente um até breve. 
Entardeceu, 
O amor não se escondeu, o amor nasceu mais uma vez, em mais um mês que encerra e irá recomeçar, ele irá nascer. 

concentração


Todas as manhãs se via o sol nascer
Todas as noites se via as estrelas ao infinito e além
Todas as tardes se via o sol deitar
Todas as madrugadas se via ao longe as casas acenderem e apagarem
Todas as segundas eram emitidos os sons de apitos
Todos os sábados se ouvia o ruído de mãos batendo n’água
Todos os domingos sentia-se o cheiro da carne assando
Todos os feriados escutavam-se as gargalhadas intensas
Todos os finais de semana era emitido o eco de treinadores
Todas as terças eram arrastados tênis no chão da quadra

Todas as manhãs quase não se vê o sol nascer
Todas as noites, quase todas, chovem
Todas as tardes os pássaros não são vistos
Todas as madrugadas o frio chega
Todas as segundas são alarmes que avisam mais um dia de trabalho intenso no campo

Todos os sábados ouvem-se máquinas ruindo
Todos os domingos ficam o cheiro dos motores
Todos os feriados são de silêncio absoluto
Todos os finais de semana acorda-se com outro cheiro

Fotos: Pessoais. 2011, 12, 14

Todas as terças até os sábados emitem sons ensurdecedores

a grande beleza.

os pássaros voando
as estátuas perdidas no concreto urbano

a vida
a orgia

o caos
a guerra
o barco correndo tranquilamente pelo rio ao amanhecer

não paramos
não pensamos
ou pensamos
mas demais pensamos

a corrupção
a (in)felicidade

a fé
a igreja
a morte
a mulher
o homem
o corpo

“é só teu coração que não te deixa amar, você precisa reagir, não se entregar assim, como quem nada quer”

“para onde é que você foi que eu não te vejo mais”

“o que te sobra além das coisas casuais, me diz. achando que sofrer, é amar demais?”

o que nos sobra além das coisas casuais, será a grande beleza, o que é grande e o que é belo? é mais que esta lista? belo, temos tanto à falar sobre essa palavra no dicionário, mas talvez falte um pouco disso na vida, nas flores, fora do asfalto, fora do concreto cinza no preto dentro do branco. talvez falte o amarelo dentro do vermelho e o preto com o laranja. talvez tenha que ter a falta do concreto para virar completo, será?

o pulso que pulsa

para que eu pudesse alcançar seus pés e te beijar
te beijar até não aguentar mais
te beijar até que eu pudesse alcançar seus cabelos
te beijar até que eu pudesse quase que completamente ficar sem ar
te beijar até você me deitar em seu colo

ambos estamos distantes um do outro
mas o coração que pulsa por entre o pulso
o coração que pulsa entre as veias

e as artérias

o coração que pulsa dentro de mim

nos meus sonhos você está presente

mas o melhor é quando a realidade vem à tona

você vem na minha frente e me olha com cara de desejo

me olha com olhar de quem quer me me beijar

me beijar do começo ao fim

como eu gostaria de abraçar você

como é bom ter você por perto

como é bom

bom

é

como

ter

por

perto

você.