Aquele troço, o tempo

Os relógios são cada vez mais nossos amigos e inimigos, é uma relação confusa, mas até que boa. Os pés não tem tanta paciência para esperar o outro andar mais rápido no metrô, as pessoas se esbarram cada vez mais e se olham por muito menos. As redes sociais, os jornais e a televisão nos tomam por completo, quase que de assalto. Não temos tempo para quase nada, até no sábado que seria o famoso fim de semana, temos muito para fazer: Super mercado, faxineira, levar os filhos nos eventos da escola (não dá tempo dos pais assistirem durante a semana, então marca pro fim de semana), além disso tem o futebol, tem que fazer as compras do churrasco, arrumar a casa para receber as pessoas por 3h ou 4h, afinal, ninguém vai ficar lavando louça até de madrugada, no dia seguinte é domingo. Quase tudo está quase tudo fechado domingo, menos o pensamento das pessoas acerca da segunda, que já tá logo ali. Quando se vê de novo é o mesmo café pouco que sobrou no fundo do copo que foi lavado rapidamente com a água, o pão não é tão fresco como o de sábado, a padaria está cheia e a fila é enorme, a maioria das pessoas estão ali consumindo o café que não dá tempo de tomar em casa, algumas vão até comendo no ônibus, andando a caminho do trabalho.
Enquanto fazem tudo isso? Dá até para mandar a Dona Maria mensagem de texto para o filho avisando da louça na pia, pedir também para ele tirar a toalha de cima da cama, ninguém quer ficar doente. Perder um dia de trabalho com criança no hospital? Sem chance, o chefe me mata. Mês passado já descontou por eu ter atrasado 10 minutos porque o ônibus quebrou e demorou muito para outro passar, é claro que veio lotado.
De noite? Tem que preparar a janta do Júnior, não esquecer que o Felipe não come carne… ô menino complicado, tinha que entrar nessa onda vegetariana justo agora? Paciência, pelo menos tá namorando e transa fora de casa, um lençol a menos para limpar toda hora – detergente, sabão em pó e tira mancha é muito caro – o dinheiro sai do trampo dele mesmo… Que mal tem?
De madrugada? Dormir? Nem rola, tem que preparar o cardápio  dos meninos para o resto da semana, ver quanto de dinheiro ainda tem para colocar no cartão de passe, se informar sobre o que tá acontecendo por aí, ter uma noção da previsão do tempo, deixar uma roupa reserva separada para levar na mochila e não esquecer do bendito guarda chuva. Semana passada, vê se pode menina, esqueci de colocar na bolsa, acharam até que tinham adotado um gambá pro escritório, mas era eu fedendo… Que caos!
O tempo de Dona Maria é tão parecido com o nosso, tendo filhos ou não, as responsabilidades são tantas e falta tempo até para respirar e comer direito. Tudo bem, uma hora eu acredito na humanidade, tenho fé de que as pessoas terão um pouco de tempo para sei lá, olhar para o teto a toa, sem pensar em nada… Eu acredito que vai chegar um dia e as pessoas vão respirar, elas vão saber o que é olhar para o outro e contemplar o sorriso no rosto do cara que ontem você deu um empurrão no metrô, só para não aguardar o próximo trem que viria mais lotado. Falta tempo, falta respirar e isso é quase uma arte. 
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